Dos que se vão e dos que cá ficam





Vou repetir-me, mas a semana passada deve ter sido das mais tristes de que há memória. Assim de repente resolveram desatar a morrer como se o mundo acabasse amanhã. De repente, ficamos mancos de gente que nos diz alguma coisa. E, pior ainda, achávamos que ia passar e pronto, mas não foi nada assim. Os que nos servem de ídolos e de guias, com quem crescemos e de alguma forma nos identificamos estão a ir-se aos poucos. E o mal disto é que nos lembra que também não somos imortais. Ainda pior: vejo-me na pele dos meus Pais há uns anos, quando comentavam a morte deste e daquele.

A morte do Bowie, relembrou-me que somos todos iguais, uns é que trabalham mais do que outros e o seu génio ultrapassa tudo. Lembrou-me que, de repente, os meus ídolos também envelhecem e que mais tarde ou mais cedo se vão. E pôs-me a pensar que as gerações a seguir à minha (especialmente a do meu filho) não têm ídolos a que se agarrar. Têm umas versões instantâneas que duram tanto quanto o tempo que fumamos um cigarro, que deixaram os valores em casa escondidos no fundo de uma gaveta.

Ficamos desorientados. Habituamo-nos a tê-los ali, na prateleira dos vinis e dos CDs, à distância de um braço. Quando fosse preciso estavam ali à mão de semear para nos fazer uma festinha na cabeça, ajudar-nos a festejar ou simplesmente porque nos perguntávamos se haveria vida em Marte. Agora já não. Estão na prateleira sim, mas sei que o que tenho na prateleira não vai crescer, vai ficar ali e que nunca mais nos vamos falar nem ver. Mas, querem saber? Gostei de não saber, preferi ser surpreendida há uma semana. As imagens que guardo são melhores do que outras que pudessem aparecer para documentar aquilo que alguém não queria que se visse, para que a imagem que guardamos dele fosse a boa, a camaleónica. E por isso, não fico muito zangada.

Foto de Sally Pinera via Once Wed

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  1. Bom dia
    Ainda hoje acho que é mentira, que ele não se foi para sempre... Nunca imaginei que a morte de um artista me doesse tanto, que me fizesse tanta diferença... como é possível? Afinal nunca falei para ele nem ele sabia da minha existência. Mas a importância que as músicas dele têm na minha vida não tem explicação... E daí venha a razão da minha tristeza.
    Boa semana
    Marta

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    1. É mesmo isso, ele tinha uma influência brutal e só nos apercebemos quando se vai - eu também fiquei abananada o dia todo. E acho que ainda estou. Boa semana!

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  2. Ainda me lembro do dia em que comprei o Ziggy Stardust em vinil. Foi numa discoteca na Rua do Carmo em Lisboa. Ouvi tantas vezes até riscar. Há mais de trinta anos que oiço a obra dele. Sempre foi o meu preferido, ele e os Stones.

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    1. À conta disto fui investigar a minha colecção de vinis cá de casa e descobri que o meu Ziggy custou 330$00 (não me lmebro onde o comprei, mas quase de certeza na Tubitek, no Porto). Devo ter andado meses a juntar para o comprar (mas sei que o meu Pai o deve ter ouvido até à exaustão!). São memórias giras, não são?

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